Contardo Calligaris me dá umas dicas…

O colunista da folha Contardo Calligaris escreveu na Folha de São Paulo de 14/07 um texto que caiu como uma luva para meu momento de vida.

Não que seja surpresa pra ninguém, mas vale repetir: mudar o rumo da vida não é fácil. Tá isso é óbvio, mas meus amigos mais próximos ás vezes esquecem desta simples afirmação, quando me parabenizam pala mudança de rumo que fiz. Talvez seja exatamente por isso, por que acham que já a fiz.

Não… ainda não. Sim, larguei uma carreira de sucesso na Engenharia Civil pelo sonho de ser fotógrafo. Mas o processo de mudança ainda não terminou, é difícil, desafiador e com altos graus de ansiedade envolvidos!

Por outro lado, estou na busca de um desejo pessoal, com surpresas muito boas, descobertas pessoais fascinantes e uma gratificação ao produzir arte que é algo indescritível. Isso por que estou só começando. E, aviso: por mais difícil que seja, eu não vou desistir!

Leia o texto abaixo, que vale muito a pena.

E: não desista dos seus desejos. Ou melhor, não desista dos sonhos… eles são a razão de existirmos.

Cidade Extraída de um Sonho, Ygor Raduy

Cidade Extraída de um Sonho, Ygor Raduy

(Copiei o texto da Folha. Como meu pai é assinante, entendo que é como se tivesse copiado e passado pra amigos, sem quebrar qualquer direito de cópia etc. Tá aqui, aberto, com fonte, nome do autor e tudo!).

CONTARDO CALLIGARIS

Volta da Flip

Qualquer escolha significa desistir de desejos nossos aos quais preferimos outros, também nossos

NA COLUNA da semana passada, escrevi sobre a facilidade com a qual desistimos de nossos desejos e, com isso, às vezes, passamos décadas pensando em outras vidas, que poderiam ter sido as nossas se tivéssemos tido a ousadia de correr atrás do que queremos.

A coluna terminava com uma exortação à coragem de agir e com uma explicação possível: desistimos para evitar a dor de fracassar. Pensar que nem tentamos conseguir o que tanto desejávamos seria menos doloroso do que constatar que tentamos e não conseguimos. A desistência seria mais suportável do que o eventual malogro.

Numerosos leitores me escreveram, evocando (e lamentando) alguma desistência passada. O que não é surpreendente: somos quase todos assombrados pela sensação ou pela lembrança de ter desistido (na escolha de uma profissão, de um amor ou de um casal).

A razão é aparentemente simples. Faz dois séculos que nossa origem não determina nosso destino. Não seremos marceneiros só porque esse foi o ofício de nosso pai e avô. Não nos casaremos por tradição nem segundo a escolha das famílias. Escolheremos sempre por gosto ou por amor. Ou seja, temos a incrível pretensão de viver segundo nosso desejo.

E aqui a coisa se complica, porque, neste mundo sem castas fechadas e com poucas fronteiras, as possibilidades são muitas e, talvez por isso mesmo, os desejos que nos animam são variados e, frequentemente, estão em conflito entre si.

Ou seja, escolhemos entre caminhos diferentes, oferecidos pelas circunstâncias da vida, e também entre desejos que são todos nossos. Qualquer escolha implica perdas (dos caminhos que deixamos de percorrer) e desistências (de desejos nossos aos quais preferimos outros, também nossos).

Um leitor, Augusto Bezerril, pergunta se desistir de um sonho não é apenas o efeito de um conflito. Ele tem razão: em muitos casos, desistimos de um sonho para nos dedicar a outro, esperando resolver assim um conflito interno.

Outra leitora, Ana Chan, pergunta se “desistir dos desejos significa viver em frustração”. Talvez haja algo disso na nossa insatisfação: a variedade de nossos desejos torna a satisfação difícil, se não impossível.

Mas o fato de ter que escolher entre desejos alimenta outra forma de insatisfação: não tanto uma frustração quanto uma espécie de nostalgia do que não foi -um afeto moderno, como é moderna a pluralidade de nossos sonhos.

Alguns dizem que é por isso que a ficção se torna tão importante na modernidade, para que possamos imaginar (e viver um pouco) as vidas das quais desistimos, os caminhos pelos quais não enveredamos.

Agora, a escolha entre desejos diferentes não é a desistência mais custosa: há indivíduos que não desistem de tal ou tal desejo, eles desistem de desejar. Aqui o afeto dominante não é mais a nostalgia, mas uma culpa da qual a gente parece nunca se curar: a culpa de ter traído a nós mesmos, de ter desprezado nosso sonho mais querido. Essa sensação é especialmente forte quando alguém considera que silenciou seu sonho de infância.

Mais uma leitora, Janaina Nascimento, pergunta: “Você nunca desprezou seu próprio desejo?” (e acrescenta: “Acho que você não vai responder”).

Pois bem, desisti de vários desejos a cada encruzilhada, e, às vezes, com a impressão de estar traindo meu maior sonho. Por exemplo -pensava eu, voltando da Flip-, quando sou levado a falar de como me tornei romancista, acabo contando que escrever histórias era tudo o que queria desde os nove anos de idade, mas desisti aos 20, para me conformar à expectativa familiar de que eu fosse para a faculdade. Essa história é verídica e parece ser mesmo uma história de renúncia ou de desistência.

Mas será que é isso mesmo? Será que a gente desiste e renuncia? É possível. Mas a renúncia e a desistência são, antes de mais nada, jeitos melodramáticos de contar nossa história de modo a mantermos a ilusão confortável de que temos uma essência e somos definidos por desejos fundamentais -que (obviamente) não deveríamos trair.

De fato, a vida comporta poucas traições radicais de nós mesmos e de nossos desejos, e muitas soluções negociadas, espúrias, pelas quais a gente busca conciliar desejos diferentes com acasos, oportunidades e outros acidentes, reinventando-se a cada dia.

ccalligari@uol.com.br

@ccalligaris

via Folha de S.Paulo – Contardo Calligaris: Volta da Flip – 14/07/2011.

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One Comment to “Contardo Calligaris me dá umas dicas…”

  1. Tenho vários sonhos não realizados, mas não deixo que eles se tornem grandes frustrações. Queria por exemplo e ainda quero ser baixista, infelizmente isso esta no hall dos hobbys. Mas amadurecer é reconhecer que não conseguiremos ser tudo o que imaginamos. Sobre desistência dos sonhos eu sempre lembro de um ditado oriental que diz mais ou menos assim “Quanto mais próximo você estiver de desistir, mais próximo esta a realização do que almeja”

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